Ela, o sol e um bravo coração
Fora um tempo difícil.
Observá-la, encolhida como uma rosquinha, deitada sobre um amontoado de lençóis e sem a energia traquina de sempre, me causava uma tristeza profunda, difícil de explicar.
Não era apenas pelo sofrimento físico que, já há alguns meses, ela vinha passando.
A sensação era de impotência. De inutilidade. De não poder fazer mais pela pequena.
Dia de banho de sol.
Peguei a pequena no colo. Estava tão mais leve...perdeu muito peso desde o agravamento da doença. Tinha mais pele sobrando, e seu pelo estava mais fino. Sua coloração acinzentada estava mais clara.
Sol a pino. Decidi tornar rotina o banho de sol. Uma dose diária de vitamina D que talvez trouxesse mais vitalidade a ela. Um pouco mais de vida era o que eu desejava.
E enquanto torrávamos naquele sol eu pensava.
Às vezes, sentindo raiva das decisões que tomei e me levaram a um estado de completa impotência. De ser possível fazer mais, mas a impossibilidade de fazer algo tomava conta de mim.
Todo dia de banho de sol, embaladas por uma canção de alimentava esperança, eu pensava no que poderia fazer. Do que queria fazer e fugia do meu alcance.
Dias antes de sua partida, segurei-a no colo, como um bebê. Não por mim, mas porque ela já não tinha forças de ficar em pé. Estava tão leve...
Em seus últimos momentos, seus olhos sequer me enxergavam mais.
Ouvi seus últimos lamentos em meu ouvido.
Tenho certeza de que ela nunca me culpou por todo sofrimento que teve que passar – e que me amou fielmente até seu último pesado suspiro.
Eu, no entanto, não tenho a certeza de que serei capaz de retirar de mim a culpa, a responsabilidade, de dever cuidado e lhe faltar.
Uma coisa, no entanto, nós tínhamos em comum: eu amei a pequena com todo o amor que carregava em meu peito.
E a música que embalava nosso banho de sol, por alguma razão, me trouxe uma coragem desconhecida até então.

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