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(extra) Ordinário

18 de abr. de 2025
2 min de leitura

Atualizado: 22 de abr. de 2025

Há quem fuja da rotina como se dela emanasse o tédio, o vazio, o lento afundar da alma.

Mas eu — talvez por ofício íntimo, talvez por vocação secreta — gosto da vida comum.

Gosto da vida que se repete, não por inércia, mas por escolha silenciosa.

A vida simples, habitual, ordinária.

Sim, ordinária.

Palavra que muitos escutam como sinônimo de mesmice, de falta de brilho. Mas o dicionário, que conhece melhor a língua do que os apressados, diz que "ordinário" é apenas o que é corriqueiro, comum, que segue sua ordem, o que tem ritmo. E não há música sem ritmo.

Não há paz sem repetição.

Imagina só acordar todos os dias no mesmo horário, caminhar os mesmos passos até o mesmo trabalho por anos!

Para alguns, isso é prisão.

Para mim, é liberdade.

A liberdade de saber onde estão as coisas.

A liberdade de confiar no chão que se pisa.

Há muita coisa boa na previsibilidade da vida:

dormir na mesma cama, no mesmo lado, que já guarda o formato de suas curvas.

Treinar no mesmo horário, onde não há gritaria juvenil.

Ir à missa no domingo e receber o mesmo “Paz de Cristo!” das mesmas mãozinhas enrugadas. E depois, como um ritual quase sagrado, sentar na mesma mesa da mesma padaria e pedir a mesma peculiar combinação: queijo coalho, geleia, cuscuz doce e café preto. Ali, entre goles e migalhas, assistir ao teatro das famílias que também repetem sua presença — fiéis à alegria discreta de um domingo igual a tantos outros.

De dormir e acordar ao lado da mesma pessoa, com o mesmo cheirinho — confortável, seguro, caloroso — de sempre. Como se o tempo, ali entre lençóis e respirações, fizesse uma pausa para lembrar que o amor também tem cheiro, e que o afeto pode morar na repetição.

Em ouvir o mesmo country antigo enquanto o churrasco chia na brasa.

Em rir das mesmas histórias, que não cansam porque já pertencem a nós como pertencem os braços e os pés.

As surpresas são bem-vindas, sim! — mas não são alicerces.

O novo encanta, mas é o hábito que sustenta.

Os hábitos, a rotina, ou como quiser chamar, constroem mais do que histórias: criam tradições.

A tradição — essa forma de memória viva — nasce da rotina, e não do espanto.

É na repetição que as coisas criam raízes.

E tudo o que cria raiz, permanece.

Tudo o que permanece, vale.

Assim, o que é ordinário ganha um prefixo sutil, quase secreto.

E se revela, enfim, como aquilo que sempre foi: extraordinário.


 
 
 

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Max Monteiro Santos
Max Monteiro Santos
18 de abr. de 2025
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